terça-feira, 7 de junho de 2016

As Várias Formas de Samba - Mauro Viana




As várias formas de samba

A Discografia da Música Popular Brasileira registra 54 denominações de sambas

Por Mauro Viana

Você já ouviu falar em samba-rock? Já dançou samba-rock? Já dançou o samba-dolente?. E o samba-rasgado? Ah, sim:  Não podemos esquecer do samba-reggae. Samba de terreiro, claro, todos nos conhecemos. Mas o que é mesmo Samba de Terreiro? Seria o samba-enredo uma síntese de tudo isso? Com a palavra os Mestres e Doutores do samba.
Convidada a discorrer sobre a bossa nova como forma de samba, a professora Marília Trindade Barboza (biógrafa de Cartola, Paulo da Portela, Silas de Oliveira, entre outros) faz a seguinte análise:
— Tom Jobim disse que suas maiores influências foram francesas, de Debussy e Ravel. São esses os pilares de sua obra, que se traduziu no tipo de samba conhecido como bossa nova. O Jazz também sofreu essas influências. Já João Gilberto criou um estilo de tocar e cantar que abandonou a percussão africana, o baixo cantante do violão e o “bel canto” popular, encontrado nas interpretações de Chico Alves e Orlando Silva, substituindo tudo por um estilo intimista, clean, muito mais identificado com as elites do que com as massas.
Já o advogado, compositor, cantor, escritor e pesquisador Nei Lopes, por sua vez, lembra que no quesito bossa nova “temos a obrigação de reconhecer a importância do Tamba Trio, Johnny Alf e João Donato.”.
Voltando no tempo, ouçamos a professora Graziela Salomão sobre canto e dança populares no Brasil do século XVIII: “Samba, gênero descendente  do lundu, começou como dança de roda originada em Angola e trazida  pelos escravos, principalmente para a região da Bahia”.
Bem, já deu para perceber que estamos em plena sala de bate-papo do www.republicadosamba.org cujo mais novo convidado é o ator, escritor e produtor Haroldo Costa. Ele concorda, em parte, com a pesquisadora Graziela.
Por quê?
— Porque aprofundei este tema na abertura do meu livro “Na Cadência do  Samba”. A discordância é sobre o destino dos angolanos que, majoritariamente, vieram para o Rio de Janeiro.
Questões no ar, polêmicas no ciberespaço. Para evitar qualquer dano, à teia mundial, entra em cena a figura do mediador. Ele coloca a questão e os nossos convidados fazem suas observações. Haroldo Costa e Graziela  Salomão, por exemplo, têm opiniões diferentes quanto ao destino dos angolanos.
Qual será a posição de Marilia Barboza?
— Alguns ajustes fazem-se necessários para não se misturar as estações. A definição de lundu está perfeita (lundu e modinha, ambos do século XVIII, são as duas grandes matrizes da música popular brasileira). Mas a trajetória do samba é outra.
O samba é o próprio batuque angola-conguense, do qual saiu o lundu, que é produto da introdução de elementos lusos na rítmica do batuque original. Esse mesmo batuque, presente nas cerimônias religiosas de origem banta, ao receber letra profana, tornaram-se o  que hoje chamamos de “samba” e, segundo testemunho dos próprios pioneiros do gênero (como Carlos Cachaça), era sinônimo de macumba e  foi levado para a Mangueira por Mano Elói (Elói Antero Dias),  patriarca da Serrinha. Ele veio do Vale do Paraíba, interior do Rio de Janeiro. Este fato está consignado em inúmeras letras de sambas da  época. O samba da Bahia é outra coisa.
Mestre Nei Lopes, por favor:
— O nome “samba” designava várias danças aparentadas, surgidas sincronicamente em vários pontos do país. E o “lundu” pode ser considerado um tipo de samba.
Uma vez no chat, Nei Lopes emenda a questão de compositores como Dorival Caymmi, Batatinha, Adoniran Barbosa, Lupicínio Rodrigues e suas contribuições à consolidação do samba como identidade nacional.
Para o sambista de Irajá, o samba se consolidou como símbolo da identidade nacional, ali, pelos anos 30. E aí, dessa época, atuante mesmo, só Caymmi.
A professora Graziela retoma o tema bossa nova. Ela destaca a influência da cultura musical americana nas harmonias de João Gilberto e Tom Jobim. O teclado é seu, Haroldo Costa:
— É uma impropriedade dizer que bossa nova não é samba. A música-símbolo do movimento é “Chega de Saudade”, inegavelmente, no ritmo do samba. Tom Jobim e Vinicius fizeram “Só Danço Samba”. As harmonias são mais sofisticadas e pode-se notar a influência dos impressionistas como Debussy, por exemplo. Tem mais: “Há estudos, pesquisas, tese, livros que desenham uma corrente da bossa nova, digamos, mais popular. Segundos estes os estudiosos, houve um racha encabeçado por Baden Powell e Vinícius de Moraes criadores do afro-sambas”.
Eis o momentoem que Marilia Barbozareproduz a fala do grande Baden:
— Ele afirmou que, nos afro-sambas, o que era afro eram as letras, utilizando a temática negra, produto do momento político em que surgiram. Porque a música e o ritmo dos sambas já eram afros antes de terem esse nome.
Repare no reforço de Nei Lopes:
— O que é um “afro-samba?” O que se utiliza temas de candomblé e capoeira? Então, Edu Lobo e outros também fizeram afro-sambas. O que houve de dissidência foi uma corrente, Carlos Lyra à frente, que optou por temas sociais em vez do lirismo puro e simples.
Senhor mediador, qual e a próxima questão?
Uma corrente mais popular faria ressurgir o samba tradicional do morro, no final da década de 60, nas vozes de Cartola, Nelson Cavaquinho e, mais adiante, Candeia, Chico Buarque de Holanda e Paulinho da Viola. Este mesclou o estilo ao choro e, se transformaria em um ícone do samba tradicional para a corrente mais vanguardista até hoje.
Correto?
Haroldo Costa:  O samba é um ritmo mutante que se apresenta em várias categorias. O choro é esta riqueza que nós conhecemos. Sempre houve, e tudo indica que haverá sempre, cantores e compositores que enriquecerão estes dois gêneros intrinsecamente cariocas.
Corte rápido, Nei Lopes:
— É mais ou menos isso, sim. Mas o samba tradicional sempre esteve junto com o choro, sempre foi acompanhado de violões, cavaquinho, pandeiro, flauta. Eu ouso dizer que o choro, ainda mais quando rápido (“chorinho”) sempre foi uma forma de tocar samba.
Já Marilia Barboza interpreta, assim, a questão: “Samba de morro, que era o ponto de macumba com letra profana, era acompanhado, no seu começo, apenas por percussão. Num segundo momento, nas próprias comunidades, foram surgindo um violão aqui, um cavaquinho ali. Mas somente com o rádio e a gravação de discos é que o conjunto regional (flauta, cavaquinho, dois violões e um pandeiro) passou a acompanhar os sambas. Paulinho da Viola, filho de César Faria, membro do famoso conjunto Época de Ouro, cujo líder era Jacob do Bandolim, desde criança conviveu com o choro. Esse convívio, aliado a um talento ímpar, tornou seu samba mais sofisticado e, por conseguinte, mais palatável àqueles que identificavam o samba tradicional do morro como música rude e de pouca qualidade”.
Lacônica, a professora Marilia Barboza analisa as várias formas de sistematização do gênero (samba-reggae, samba-pop) como inevitáveis produtos da aldeia global, da globalização, da miscigenação musical que nos envolve e, às vezes, até afoga. A diversidade do samba, contudo, é fato, é unanimidade entre nossos mestres.
Professora Marilia quais seriam, então, as várias formas de samba?
— Segundo a Discografia da Música Popular Brasileira, em 78 rotações, nas etiquetas de discos existem 54 denominações de sub-gêneros do samba, algumas que decididamente não são sambas, como o “Pelo Telefone”, de Donga e Mauro de Almeida, assim como todos os de Sinhô, que são maxixes com letra. Outras, totalmente destituídas de valor musicológico, como samba semi-filosófico ou samba humorístico. Mas há alguns sub-gêneros que são bem caracterizados. Do grupo de Sambas de Raiz, temos o Samba de Terreiro, o Partido-Alto, o Samba-Enredo, o Pagode. Na linhagem do Samba de Rádio, temos o Samba-Choro, o Samba de Breque, Samba-Exaltação e o Samba bossa nova, por exemplo.
Haroldo Costa lembra que Jorge Benjor é autor de um dos maiores sucessos, na emergência da bossa nova. O samba intitula-se “Mas Que Nada”, que popularizou Sérgio Mendes no mundo inteiro. O samba sempre teve sobrenomes: canção, jongo, exaltação, e nunca deixou de ser samba. Quanto às varias formas de samba, resumem-se em todos que têm o compasso 2/4. “No futuro o samba pode adotar várias configurações
como seu primo-irmão, o jazz. Ele se reinventa sem perder a originalidade”,  afirma Nei Lopes.
Antes de sair da sala, porém, Nei Lopes ressalta que todas as formas são formas de samba. Para ele, a relação vai do Samba-de-Roda da Bahia até o “baba” (meio Iê-Iê-Iê, meio sertanejo) dos raças-negras da vida.
Sobre as fusões do samba no futuro, diz ele:
— Dependendo do que o mercado quiser, do que as escolas de samba resolverem “inventar” pra incrementar aquele show cada vez mais pobre musicalmente. E da reação que isso tudo suscitar. Cada vez que o samba comercial vai ficando chato, o povão inventa um samba legal. Isso é imprevisível. Pode até voltar tudo como era. Se puderem, ouçam o novo CD da Velha-Guarda do Império Serrano. São tantas as possibilidades. O samba é fogo, não é Marilia?
— Fogo é pouco Nei. O que se pode observar é: o samba cada vez mais demonstra a sua vitalidade e capacidade de adaptar-se a todos os momentos, a todas as temáticas. Por algum tempo, pode parecer adormecido e, de repente, surgir forte como a Fênix renascida. Hoje, caem mais fortemente as barreiras que confundiam o social com o artístico. Se Nelson Cavaquinho era o sambista do povão e Paulinho da Viola agradava às elites, hoje, Zeca Pagodinho é tão unanimidade quanto Chico Buarque de Holanda. E constatamos com alegria a disseminação do samba-enredo “pelos quatro cantos do universo” (só Portugal tem 38 escolas de samba). O samba é o segundo hino da nossa nação. Aliás, um verdadeiro milagre: mesmo num momento em que o Brasil vive situações tão dramáticas nos setores da política, da segurança, da justiça social, é a classe menos favorecida que nos presenteia com o melhor produto de exportação, gerador da melhor imagem que o país apresenta lá fora: a nossa música popular, o nosso samba.
Mauro Viana (www.republicadosamba.org) é jornalista e Coordenador Executivo do projeto República  do Samba. O autor também pesquisa a Cultura Negra na América Latina
http://www.algoadizer.com.br/edicoes/materia.php?MateriaID=690















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